Dos fetiches e Cia.: A cultura, o exótico e o bizarro – Parte I


Acredito que todos já tenham ouvido a música composta por Randy Newman, “Leave your hat on”*, onde um homem incita uma mulher a tirar toda sua roupa com exceção do chapéu. É um blues bastante sensual que já estrelou alguns filmes onde há alguma temática erótica em cena.
Para começarmos nossa leitura gostaria de esclarecer do que se trata o fetiche.
No caso do homem da música, por exemplo, se ele não conseguir apreciar o sexo a menos que ela use o chapéu, poderíamos dizer que ele tem um fetiche por chapéus.
Citando o livro “Prazer & Emoção – O guia de sexo mais completo e divertido do planeta”*, eis uma definição para fetiche:
1.       Uso de objeto, parte corporal, situação ou cenário para excitar-se sexualmente;
2.       O adereço pode ser fantasiado ou existir na realidade;
3.       Um filósofo descreveu fetiche como algo semelhante à situação em que uma pessoa faminta senta-se à mesa de jantar e sente-se saciada pelo simples fato de acariciar o guardanapo.
Essas definições tem o suporte de psicólogos que porém, afirmam que quando uma pessoa gosta de determinada coisa, mas não depende dela para excitar-se, então deixa de ser um fetiche e passa a ser apenas uma fantasia.
O fetiche pode se tornar um problema, caso entre um casal apenas uma das partes tem um determinado fetiche e a outra parte não sente prazer algum com ele. Fazendo novamente referência ao livro, “os psicólogos diriam que há fetiche, quando um homem considera a calcinha da mulher mais importe que ela”. Logo a outra parte passa a se sentir menos importante que o próprio fetiche e isso respalda sobre sua autoestima de forma extremamente negativa, podendo inclusive bloquear a excitação sexual.
Por exemplo, se a mulher da música adora usar chapéu, especialmente nua, então encontrou seu par perfeito. Do contrário, logo começará a se sentir uma chapeleira humana.
 
Ilustração: Keith P. Rein
Nossa sociedade vive uma contradição cultural bastante interessante. Em termos práticos, somos mais propensos a aceitar a criatividade feminina de forma mais confortável que a deles. Ainda que, aparentemente, os homens sejam mais inclinados ao sexo exótico do que as mulheres.
Felizmente essas estruturas estão mudando em nossa sociedade, à medida que as pessoas passam a entender que a sexualidade é algo perfeitamente normal, ainda que fuja aos padrões do considerado “habitual”.
Podemos citar o fato de que é muito comum vermos mulheres se tocando. Elas fazem isso quase que o tempo todo, ao conversar. Enquanto que para um homem, tocar outro com metade dessa frequência já seria considerado gay. Isso está mudando aos poucos, inclusive pelo fato de que o amor gay também está sendo progressivamente mais aceito em lugares públicos; sendo muito mais comum hoje do que a dez anos atrás, ver dois homens ou duas mulheres andando de mãos dadas pela rua. Os olhares preconceituosos certamente permanecem, porém já existe certo pudor em se falar algo a respeito, até porque existem leis que garantem a integridade dos indivíduos e a liberdade sexual.
Um homem para ter mais contato com outro – mesmo que existam as muito bem vindas exceções, só toca tanto outro homem quanto as mulheres, se em algum esporte de contato como luta, futebol ou sendo gay. Esse é um preconceito que particularmente vejo desmoronando com bons olhos.
Pois já está na escola essa mudança, quando os meninos fazem aquelas brincadeiras brutas de montinho, por exemplo. Alguém serve de vítima e todos se amontoam sobre essa pessoa. Divertido, perigoso de alguém sair machucado, mas se está estabelecendo uma mudança de padrão aí. Amigos se tocam, se abraçam, pais e filhos se beijam e trocam carinho. E aos poucos vamos derrubando esse preconceito besta, assim como fizemos com a camisa rosa para homens.

Quando entramos no campo do sexo exótico, se abrem muitas portas para o casal que queira se divertir. Cada qual encontra seus limites entre o exótico excitante e aquele que causa repulsa ou chega ao fetiche bizarro.
Porém é importante estabelecermos como base o princípio de que desde que não haja humilhação, desrespeito à integridade física e emocional e seja feito com pleno consentimento de ambas as partes, não existe certo ou errado.
Para algumas pessoas, exótico é fazer ménage à trois, para outras, é praticar a “chuva de prata” (fetiche por urina durante o intercurso). E quando um casal resolve abrir a Caixa de Pandora é importante que esteja preparado para isso, jamais julgue seu/sua parceiro/a pelas fantasias que construíu.
Às vezes, uma fantasia se desenvolve sem sequer sabermos que tínhamos excitação pela situação em questão, até que nos deparamos com ela e um misto de curiosidade e tesão chegam ao pensamento. Então ninguém está em posição de juiz numa relação amorosa e/ou sexual.
Da mesma forma, não cabe a nenhuma das partes impôr sua fantasia, absolutamente. Fantasia pra ser satisfatória e bem sucedida deve ser feita com o consentimento e a intenção sincera de ambas as partes. Ceder para agradar seu amor pode ser uma faca de dois gumes, pois quando estiverem realizando a fantasia pode se tornar quase que uma tortura estar ali. E nessa hora é preciso coragem e pedir para parar, sendo franco/a, ou ter o pior sexo da sua vida.
Então quando vocês quiserem dar o próximo passo, para diversificar o menu sexual, comecem conversando! Conversar abertamente, sem medo, sem preconceitos ou julgamentos precipitados. Se o casal não tem abertura pra isso, então é melhor que permaneça da forma como está. Ou essas novas experiências podem cavar uma cova para a morte do relacionamento.

Bondage – É a aplicação de contenções de um modo considerado erótico ou satisfatório. Uma das formas de bondage é ter braços e/ou pés atados, enquanto alguém o beija, faz cócegas, acaricia ou lhe faz amor. Sendo que algumas pessoas culturalmente não consideram essa prática bondage, mas simplesmente uma boa técnica na hora de fazer amor.
A técnica costuma ser apreciada por fetiche, pela sensação se submissão ou simplesmente porque as pessoas podem permanecer passivas e não tem escolha senão saborear completamente as sensações que seu/sua parceiro/a lhes presenteia. Sem a preocupação em retribuir e satisfazer na mesma medida, a ansiedade do desempenho dá lugar ao total prazer e deleite das sensações.
Se você gosta dessa prática, é interessante providenciar uma algema para o casal, facilmente encontrada em sex-shops. Os pulsos e tornozelos podem sofrer danos permanentes se a empolgação for muita e os nós de gravatas e lenços são mais apertados e difíceis de desfazer. Claro, se você foi um bom escoteiro saberá como fazer nós especiais, que por exemplo, só apertam se a pessoa puxar.



Sadomasoquismo – Feministas que tem fantasia por sadomasoquismo costumam entrar em contradição, acreditando que estão abandonando sua própria causa ao ter fantasias onde sejam contidas, atadas e sexualmente violentadas, por exemplo. O que precisamos deixar claro é que o relevante aqui não é a fantasia, mas sim a liberdade de escolha.
Feministas ou não, acredito que todos estamos de acordo ao se afirmar que cada um deve ser capaz de escolher o que fazer com sua própria sexualidade. Fantasias (sejam elas quais forem) que elevem o nível de prazer, não devem ser subestimadas apenas por seu conteúdo violento ou de submissão. Uma vez que é uma encenação e uma escolha de quem, quando, como e onde isso será feito, além de se estabelecer limites.
No caso do sadomasoquismo, o prazer está em sentir certo nível de dor ou espancamento. Trata-se de uma forma de exotismo sexual e pode variar entre leve e pesado, dependendo de como é feito.
Há quem aprecie tapas no bumbum ou na região lateral do quadril porque aprecia a sensação, desde que esteja sexualmente excitado/a quando isso ocorre e se coloque na situação por vontade própria.
A verdade é que nosso nível de adrenalina e resistência à dor sobe durante o ato sexual, o que faz um tapa trazer uma sensação agradável para algumas pessoas, que pouco lembra dor.
Já tapas no rosto se enquadrariam em outra definição de sexo exótico, D&S – Domínio e submissão, misturados ao S&M – Sadomasoquismo. 

BSDM – O uso de violência e dor sexual é padrão para praticantes dessa modalidade sexual. Existem inclusive, graus extremos que causam ferimentos físicos como parte da diversão. Algumas definições que podem ajudar a esclarecer essa prática e as variações que a constituem:

·         B&D – Bondage & Disciplina
·         S&M – Sadomasoquismo
·         D&S – Domínio e Submissão
·         BDSM – De tudo um pouco!

Na BDSM, ter um orgasmo não é tão importante quanto a própria situação, com seus tons de dominação, submissão, humilhação e dor. Os praticantes não processam a dor da mesma forma que uma pessoa que não curte nenhum tipo de violência no sexo. Consideram inclusive, estimulantes e íntimas, altas doses de dor sexual, defendendo com fervor a prática.
Ao conversar com um praticante logo se percebe que a prática é levada muito a sério e é importante saber que existem regras e etiquetas estabelecidas para se evitar ferimentos graves. Relevante porém, é lembrar que cada pessoa pode ter seu próprio conceito sobre o que é um ferimento grave.
Nessa prática existe certa ordem e organização, com clubes, publicações acerca do tema em revistas e livros, além de moda em couro e correntes que podem ser conferidos em feiras e exposições do tema e encontrados em qualquer sex-shop.
Mas atenção, se você tem curiosidade e deseja iniciar a prática, não se submeta a qualquer estranho que adora tirar o couro dos outros. Aprenda as regras e garanta que seu parceiro também as conheça e respeite.
Como curiosidade gostaria de citar que quem acha que pessoas meigas costumam se enquadrar como submissas (bottoms), comete ledo engano. É fato comum a inversão de papéis, onde pessoas agressivas se tornam bottoms e as meias tops (mestre/dominador/dominatriz). Também não pense que é algo restrito a pessoas visualmente bizarras, com seus piercings, couros e tatuagens. Existem muitos médicos, advogados e figuras públicas que adoram a prática.
Problema comum nesse meio, costuma ser encontrar um bom top. Também é fato ser comum a inversão de papéis, onde os praticantes recebem o nome de switchers (trocadores).

Para a prática existem certas regras de seguranças que jamais podem ser postas de lado, seja você um praticante diário ou faça isso uma vez por ano:
·         Sempre que uma parte do corpo for atada e parecer insensível ou dormente, desate-a imediatamente. Jamais ate nada em torno do pescoço de alguém.
·         Para o caso de catástrofes como incêndios, terremotos ou a visita inesperada de mãe ou pai, tenha sempre uma lanterna e tesouras por perto. O livro SM-101* recomenda tesouras usadas por paramédicos, que podem sem encontradas em lojas de artigos especializados. Cortam quase qualquer coisa, exceto algemas. Mantenha a tesoura, lanternas e a chave das algemas em local de rápido acesso de forma que possam ser encontradas no escuro.
·         Jamais deixe a pessoa sozinha por muito tempo. Verifique se ela está bem, com frequência. Se ocorrer algum ferimento, você poderá ser responsabilizado, moral e legalmente.
·         Combine com antecedência uma palavra de segurança (senha), que servirá para cessar a ação. Algumas pessoas usam “vermelho” para parar, e “amarelo” para aliviar a força ou aperto. Ninguém que se engaje seriamente em práticas do tipo usa termos como “pare, chega, não faça isso”. Pelo contrário, usam com frequência sem a menor intenção de serem ouvidos e obedecidos.

Para não nos estendermos demais, encerro por aqui a primeira parte dos artigos sobre o tema.
Espero que possa ter ajudado a esclarecer as dúvidas mais frequentes sobre os tópicos já apresentados. No próximo artigo trataremos sobre mais fantasias, fetiches e sexo exótico como Fisting, por exemplo.
Se tiver alguma sugestão, fique à vontade para nos procurar na página ou no blog. Será um prazer saber sua opinião, dúvida ou sugestão. Lembrando que é importante não confundir os escritos com o autor.

Já que estamos falando sobre fetiche, gostaria de relatar uma situação desagradável pela qual passei recentemente e esclarecer que sou uma estudiosa das relações humanas, e não pratico libertinagem sem limites, sequer pratico tudo o que escrevo.
Fazem 8 anos que pesquiso e faço artigos sobre o tema relacionamentos e sexualidade e jamais havia me incomodado. Porém recentemente fui literalmente agarrada por um conhecido que pareceu estar fantasiando comigo de maneira equivocada.
É importante estabelecer o limite entre a fantasia e a realidade e quem me conhece pessoalmente, sabe que essa desenvoltura para falar sobre o tema se estabelece com limites, que sequer aprecio termos de baixo calão.
Sou bastante discreta e minha vida sexual jamais esteve exposta nesses artigos. É claro que toda obra tem partes do autor, mas não se confunda inspiração com relato.

Respeito é bom e eu gosto.


Saúdo a todas as gentes de alma livre, que vislumbram a importância do amor, do bom sexo e do respeito para uma vida saudável e feliz.
Reverencio e saúdo o deus e a deusa que habitam sua essência!

*Leave your hat on, música, http://www.youtube.com/watch?v=4b04jq7NB1s
* Prazer & Emoção – O guia de sexo mais completo e divertido do planeta, Paul Joannides, Editora Leganto. Considero este livro uma bíblia do sexo e boa parte desse artigo foi inspirado nele, havendo inclusive pequenos trechos parafraseados.

*SM-101, livro, Jay Wiseman, Greenery Press – San Francisco