O lazer, o erotismo e a sociedade contemporânea
(...)
Baudrillard* (2011) considera o corpo como o mais belo objeto de consumo. O corpo é
hoje a definição, através dos signos, do que somos e do que nos impõem. Queremos
com isto dizer que, o corpo veste uma série de normas e de modas que a própria
cultura nos inculca. O corpo foi, é e continuará a ser, alvo da própria evolução cultural,
e a relação entre os corpos também sofre alterações cronológicas, e varia consoante o
ponto do globo onde nos encontramos. Como refere Baudrillard (2011:165) “o modo
de organização da relação ao corpo reflete o modo de organização da relação às coisas
e das relações sociais”. Le Breton** (2002) expressa precisamente essa relação ao
assumir que transformamos o nosso corpo num mapa de signos, numa bandeira,
quando usamos os piercings e as tatuagens como forma de cartão de apresentação das
próprias crenças e estilos de vida.
Segundo Baudrillard (2011), a altura em que o corpo ganha uma maior importância
que a alma terá coincidido com o afirmar da sociedade de massas e consumo. Se antes
era a alma que assegurava a salvação, nesta nova sociedade, só poderá ser assegurada
se o corpo cumprir com os requisitos impostos pela sociedade, onde é mais
importante o ter que o ser, sob pena de exclusão social se assim não for. Esta
sociedade de espetáculo (Débord***, 1991) é potenciadora e potenciada pela sociedade
de consumo, numa dinâmica de constante necessidade e compensação entre ambas,
com a finalidade de transformar o corpo num instrumento de prazer e metamorfose
(Le Breton 2002).
(...)
Fala-se de uma hiper-sexualidade na sociedade, de uma banalização do acesso a imagens deste tipo, mas de uma forma que desvirtua a realidade, ou como afirma Pedro Mexia4 que “mostram uma faceta pesada e obscura, um vazio existencial, que contrasta com o espírito dos anos 1970, quando o sexo era percebido como libertador e festivo”, coincidindo com a geração hippie, do amor livre. Esta hiper-sexualidade derivará certamente de uma hiper-realidade, caracterizada pela instantaneidade de satisfação de desejos e prazeres, pela procura do lazer fora, mas dentro de portas, criando uma realidade não real (um simulacro), e a uma alienação do que esta representa. Ao banalizarmos as práticas sexuais, e ao transferi-las para a esfera pública, criam-se outras, nomeadamente no que diz respeito ao consumo e ao lazer.
(…)
O prazer está francamente presente nas atividades de lazer, e a procura faz com que
se multipliquem ofertas. O sexo e o erotismo foram e continuam a ser temas que se
associam facilmente a tabus e proibições, já que muitas das práticas que lhes estão
associadas, são consideradas transgressões a normas de bom funcionamento da
sociedade. No entanto, são, hoje, vistas como práticas de lazer, crescentemente
toleradas e representando para os sociólogos novas formas de relacionamento.
(…)
Numa sociedade pós-moderna, reafirmam-se tendências de fuga à regra e ao padrão,
com as práticas de lazer a partilharem características que são o reflexo da sociedade
transformada dos dias de hoje (fluída e líquida), onde a velocidade permite uma
simultaneidade de acontecimentos (violentando o tempo), a multiplicação de
oportunidades (diluindo as vontades) e o consumo compulsivo (simbólico e
interminável). A insatisfação é motivação para a procura de novas experiências, mas os
períodos de satisfação são cada vez mais curtos e as procuras mais obsessivas,
promovidas pela publicidade e pelo marketing, que nos dá o que julgamos querer,
saindo reforçado o sentido de imitação e simulação da realidade.
Fonte: Nadais, C. e Santos, N. (2012). O lazer, o erotismo e a sociedade contemporânea. Revista
de Geografia e Ordenamento do Território, n.º 1 (Junho). Centro de Estudos de Geografia e
Ordenamento do Território. Pág. 143 a 163
*Baudrillard, J. (2011). A Sociedade de Consumo. Lisboa: Publicações 70. Tradução de
Artur Mourão.
**Le Breton, D. (2002). Conduites à risque. Paris: Presses Universitaires de France.
***Débord, G. (1991). A sociedade do espetáculo. Cascais: Mobilis in Mobile, 1ª ed. 1967.
