Carnaval fora de época


Era assim, uma delícia, ornada pelo olhar profundo que lhe despia por completo. Uma mistura de vontade e confusão, de busca e perdição. Perfumados de sinceridade, um tanto mais de musicalidade, uma imensidão de quereres curiosos. Eram olhos claros, barba por fazer, lábios que carregavam um beijo suave de gosto bom. O toque das mãos era firme e suave o suficiente para lhe fazer respirar fundo, querendo mais. E mais se fez, entre passos de uma caminhada noturna, sob arcos verdes e pétalas espalhadas pelo caminho. Ela, tímida, preocupada em se esconder atrás de assuntos aleatórios numa conversa sem fim. Tropeçava nas palavras, o toque da pele parecia traduzir tudo muito melhor antes, durante, depois. Noite de aventura, de brincadeira, carnaval fora de época. De beijos sob marquises, amassos boêmios que esquentavam a noite embriagada e invernal. “Eu quero é botar, meu bloco na rua... brincar, botar pra gemer!” E quanto mais se fazia, mais se queria. Assim seguiam os amantes, encarrilhados pelo desejo. Muros altos numa cama vertical para abrir os braços numa delícia que se fazia alternada pelo gemido descontrolado e as mordidas nos dedos que tentavam abafar os sons ofegantes de prazer. Queria mais, mais! Aquilo era divertido demais pra acabar. Tinha num desejo quase nifomaníaco uma energia que levaria várias horas para se dissipar. Aquele corpo se encaixava de tal maneira entre seus dedos, seus lábios, suas curvas, que nada menos que provar cada canto daquela pele macia seria suficiente para satisfazer essa mulher. Queria um beijo profundo, um enlace horizontal que lhe permitisse tomar e ser tomada do jeito que, tinha certeza, agradaria aquele homem. “Eu sei do que você gosta, e sei fazer isso como ninguém”, pensava prensada entre a parede e o corpo que lhe tomava voraz. Aquelas mãos tinham a força e o vigor que sabiam lhe satisfazer como poucos. Escorregava entre mordidas, beijos e chupadas de cima a baixo. Queria tudo. Aquele pau perfeitamente encaixado entre seus lábios, gostoso, forte, rijo. A voz rouca que confessava a delícia presenteada em entradas e saídas alucinadas. Queria aquelas mãos que lhe tomavam os seios com vigor, fazendo arquear o quadril para sentir a volúpia que lhe domava. Mãos hábeis lhe botando prestes ao gozo. Queria o sexo voraz, a força, as mordidas e os beijos que lhe provassem cada curva que se derretia naqueles toques. Queria tudo. O queria dentro, forte, guloso... por uma noite inteira, ou quanto mais se desejassem. Mas se divertia na tensão vertiginosa que aquele muro lhe proporcionava, mal sabendo que o tempo não estava a seu favor. Queria tomar aos beijos aquele homem, provar seu gosto, seu cheiro, seu todo. Doses largas de luxúria, nos corpos esculpidos que se escondiam sob as roupas. Curvar o tempo-espaço, para se situar sob – ou sobre – o peito arfando gemidos, num balanço compassado, erótico, extasiante. Que as mãos lhe tomassem os cabelos com força, e aqueles olhos observassem atentos os quadris embalados num movimento circular, ondulante, que vai lascivo se arqueando para investidas mais fortes, mais profundas... libertinas revelando o movimento dos seios no jogo de luzes e sombras. Nos quadris se marcasse o movimento fluído, na pele alva as marcas da paixão, na boca rosada o gemido de prazer, nos olhos incendiados aquilo que as palavras falham explicar. Que eles eram amantes livres, num gozo sem posse nem possuidor. Nada ali pedia mais, senão prazer sem limite, boas gargalhadas e um pouco menos de preocupação com o mundo lá fora. Quisera. Sem tempo nem lugar, tudo se foi... Fugaz, deixando a sensação do inacabado pulsando sob a pele arrepiada, no beijo não dado, no olhar perdido, na palavra desencontrada que tropeçava nas circunstâncias. Bem que se quis. Entre encontros e desencontros o carnaval durou uma noite apenas, deixando pra trás um gosto insistente de quero mais.