Da idealização e do encontro



Passamos boa parte da nossa infância e adolescência construindo a imagem mental do que é uma pessoa apaixonantemente perfeita para nós. Das primeiras experiências com um modelo de relacionamento amoroso apresentado pelos nossos pais, às milhares de pequenas peças do quebra cabeça que vamos colhendo dia a dia. Pequenos reflexos do que é viver um sentimento de entrega física e amorosa que nos traga a sensação de pertencer, de encontrar um lar no coração do mundo.
Relances desse futuro se refletem nas imagens de fotos, trechos de filmes, com direito a trilhas sonoras, memórias olfativas, à busca do primeiro beijo de uma vida inteira de união.

Quando a vida adulta, suas experiências e por conseguinte suas decepções chegam, passamos mais alguns vários anos desconstruindo e desmistificando esse emaranhado de ilusões, sonhos e carências que ousamos um dia chamar de Amor.
O Sexo toma seu lugar de respeito, na cadeira de veludo ornamentada pelos desejos picantes que descobrimos bem mais interessantes que qualquer coisa superficial de uma noite.
O respeito se apodera da cadeira de veludo deixando claro que satisfação pessoal é essencial para uma vida feliz e equilibrada.
Mas com os tropeços pelo caminho adquirimos um ar de humildade discreta, tolerante e ciente de nossas próprias limitações. Isso torna as coisas mais profundas, emerge a necessidade de relações mais verdadeiras, mais intensas.
Quando aprendemos que ninguém é uma ilha, e como diz o poeta, é preciso sair da ilha para ver a ilha... encontramos algo vivaz.
Sem necessidade de ostentar a natureza excêntrica e única que emerge na pele.
Trata-se da necessidade de contato, sem ser forçado, sem ser animalesco, sem garantias. Contato de olhos nos olhos, palavras que se complementam, sorrisos que se desafiam.
Encontro pressupõe busca, e a linha de partida pode estar a três passos ou ter ficado para trás numa longa e sinuosa caminhada. Mas encontro não é linha de chegada, senão nova linha de partida.
Um novo querer que complementa, que estimula e conduz a novas descobertas.
Pode ter o gosto do sexo molhado e quente na sua boca, ou o amargor das palavras articuladas para doer. Mas não é um achado, é uma mutação causada por uma vibração.
Algo que não tem forma, nem avisa quando vai acontecer.
E tudo começa com um olhar, e borboletas no estômago. Faz os olhos da nossa esperança usarem o colírio da perfeição, capaz de enxergar completa uma pessoa ainda em construção.
É algo que ultrapassa a vontade de possuir, ter por ter.
É um tesão incontrolável que em alguns casos nunca vai embora.
Pode chegar de mansinho, pode ser um fogo ardente. Pode pegar qualquer um desprevinido, quando da paisagem cinza começam a surgir cores vibrantes, cheias de cheiro e som.
Mas não tem forma definida, nem jeito de acontecer. Não há uma fórmula perfeita.
Às vezes é supreendentemente homoafetivo, noutras envolve mais de duas pessoas. Dependendo, pode ser extremamente ciumento e autodestrutivo, mas pode ser supreendentemente leve e livre de quaisquer tipos de cobranças ou expectativas pueris.
Pode ser só uma vontade de ficar juntinho, que une vontades e sonhos, e deixa a vida mais suave.

Não sei. Ninguém sabe. E talvez fosse bom que todos soubessem disso.
Porque a gente é LIVRE. A gente gosta de SEXO. A gente quer BOM HUMOR.
As gentes todas quererão sempre descobrir-se apaixonadas, ainda que não admitam.

É preciso estar de coração aberto, pra que ele sirva de paraquedas. Porque o Amor é uma queda livre, daquelas que nos fazem lembrar como é sentir a vida à flor da pele, que arrepia, que parece conter milhares de borboletas dentro de nós.